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Com a palavra, os curadores

“SE É DE CORPOS E CIDADES QUE DEVEMOS FALAR.”

A primeira frase do laudo da perícia médica sobre o assassinato de Pier Paolo Pasolini é a inspiração para a criação e organização do terceiro ano de nossa curadoria para o Festival de Curitiba. Definido pelo sociólogo José Guilherme Pereira Leite como “cadáver de tensões imensuráveis”, o assassinato do artista e ensaísta italiano ajusta o adjetivo pasoliniano para definir também uma estética de sacralização dos corpos, uma moral radicalmente humanista, a tensão entre centros e periferias, o papel da cidade como agente transformador do corpo e sua narrativa, a memória como método potencialmente transformador de consciências, e o corpo que além de confessar, fabula encontrando assim seu valor também como ficção.

Em seu ensaio “Corpo contra consumo, corpo consumido”, Pereira Leite assinala a conveniência de lembrar este assassinato num momento em que o Brasil “parece renovar suas bodas com a violência como forma de resolução de conflitos políticos e ideológicos.”

Corpos, cidades, memória e a contracena na ocupação de espaços públicos são os temas propostos a partir desta inspiração para os ecos na Curitiba de 2018. Desta forma, seguimos a trilha iniciada na primeira edição que curamos, propondo um projeto artístico que se afirme no tempo e na relação com a cidade, os artistas e o público.

Em tempos de intolerância de todos os tipos, incluindo a religiosa,Gira, do Grupo Corpo traz os corpos carne, corpos espírito dos bailarinos em celebração da identidade nacional através da leitura de Pederneiras e o grupo Metá Metá de ritos religiosos que recriaram no Brasil uma África simbólica e sua memória de origens fundantes.

Em programa duplo com Gira, Dança Sinfônica é uma viagem memorialística pelos quarenta anos da Companhia mineira com os bailarinos presentificando em seus corpos um vocabulário construído através de diferentes peças, em uma vitória da arte contra o tempo.

Grande Sertão: Veredas, pedra fundamental da literatura brasileira, ganha versão cênica de Bia Lessa, de um sertão subjetivo e suas metafísicas representadas pelos corpos dos atores em ininterrupta transmutação. Duas jóias da arte brasileira, Egberto Gismonti e Paulo Mendes da Rocha, assinam a trilha sonora e a ambientação cênica, respectivamente. A peça afirma a pesquisa da encenadora na fronteira entre o teatro e as artes visuais, numa obra de intensa sensorialidade.

Inoah, de Bruno Beltrão traz a fúria da dança de rua e corpos que performam e movem contextos combinando oposição e pertencimento. O grupo, que se apresenta pela primeira vez em Curitiba, usa o hip hop como potente ferramenta de diálogo com a dança contemporânea.

Corpo sobre Tela apresenta um corpo rebelde, que se torna violento e imprevisível diante dos limites impostos pelo espaço físico. Portador de coreoatetose, condição física rara decorrente de uma lesão cerebral, o bailarino e coreógrafo Marcos Abranches inaugura, a partir de um corpo até então considerado incapaz, um despertar para novas possibilidades estéticas de movimentos, criação e produção artística. Nesta performance, inspirada no trabalho de Francis Bacon, Abranches adentra no universo das estranhezas do pintor irlandês para desvelar o ser humano na sua essência.

Integrando artes, tecnologia e ciências cognitivas, o coletivo espanhol BeAnotherLab traz para Curitiba sua performance de realidade virtual chamada The Machine to be another/Máquina de ser Outro. Questionando conceitos de gênero, sexualidade e respeito mútuo e concretizando discursos de empatias, o coletivo propicia ao espectador a chance de experimentar o lugar e a narrativa de outra pessoa. A performance vem
atraindo a atenção de pesquisadores de diferentes áreas, como resolução de conflitos, psicologia, neurociência social e medicina preventiva ao redor do mundo. Desafiando o senso comum, para os artistas do Coletivo a tecnologia é um meio de criar relações mais profundas entre as pessoas e não de estimular o isolamento social.

O coletivo holandês Wunderbaum cria um espetáculo musical colaborativo a partir das atividades na sociedade de seus integrantes, com a participação de quinze moradores de Curitiba que trabalharão com os artistas. Vamos Fazer Nós Mesmos questiona tutela estatal, moralismo social, anarquia judicial e noções de território em um pungente tratado da natureza humana.

Frequência Ausente 19Hz é uma experiência cênica em áudio binaural 3D que investiga relações entre o corpo, a tecnologia e o espaço urbano em experiência imersiva de site specific, que propõe ao espectador novo olhar sobre a própria cidade, usada como palco e trama.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, texto do português Tiago Rodrigues, traduzido para o francês e encenado pelo diretor Thomas Quillardet, com a companhia 8 Avril, é uma peça vista através dos olhos de uma criança de 9 anos. O mundo a partir da sensibilidade e consciência de alguém que ainda não endureceu, nem perdeu o ímpeto e o desejo de revolução a partir das pequenas coisas. Uma obra com dimensão poética e política que foi um dos maiores destaques da última edição do Festival de Avignon.

A delicada dramaturgia do canadense Michel Marc Bouchard é o ponto de partida de Tom na Fazenda, história pulsante que convida o espectador a refletir sobre a compreensão e aceitação do outro, em uma aventura humana representada por potente iconografia gay a partir da exploração erótica do corpo de seus intérpretes.

A escrita pós-dramática da companhia brasileira de teatro se constrói a partir da fala pública de uma mulher negra emPreto, que apresenta o racismo como construção mental do brasileiro. As tentativas de diálogos operadas pelos atores embaralham divisões de raça e etnia em cenas de grande impacto visual que ironizam e recontextualizam a iconografia da cultura negra vista por olhos brancos ocidentais.

Gabriel Villela apresenta suas versões para dois clássicos da dramaturgia nacional. Boca de Ouro, obra prima de Nelson Rodrigues, ganha de Villela contornos de ópera brasileira ao situar a tragédia do herói marginal em ambiente de gafieira, comentando a ação com pérolas do repertório de Dalva de Oliveira. O consagrado barroquismo do diretor se alimenta aqui da iconografia do subúrbio carioca. Hoje é dia de Rock, de Zé Vicente, marco da contracultura nacional sobre uma brasilidade em transformação, ganha exercício de lírica na direção de Villela em produção oficial do Teatro Guaíra.

Doze Flores Amarelas, a ópera rock dos Titãs, que tem pré-estreia nacional no Festival de Curitiba, é uma grande demonstração do poder que os músicos acumularam como banda. Em exercício de gênero musical, as vozes satíricas criadas pelos roqueiros apresentam heroínas de uma história de vingança, uma das narrativas clássicas da cultura pop.

Cidadão Instigado 20 Anos, show dirigido por Felipe Hirsch, transita pelas duas décadas da banda cearense e pelos diversos estilos de rock e influências que caracterizam a obra do grupo, seus refrões progressivos, acordes elétricos e a sonoridade de cancioneiro popular punk brasileiro. A Fortaleza dura e poética cantada no show é retrato também dos desvarios da urbe, da cidade sufocada por interesses e conflitos burgueses e da troca entre o corpo e o ambiente.

No teatro conferência de Colônia, o ator é mediador de conflitos nascidos da leitura do livro Holocausto Brasileiro. O manicômio, aqui, concretiza a metáfora da exclusão que a modernidade produz na relação com a diferença. A unidade promovida por cena, dramaturgia e performance, neste delicado espetáculo, trata do significado de colônia em um conjunto de ideias, políticas, sociológicas, estéticas e existenciais.

Chris Urch é um jovem dramaturgo que escreveu, aos 23 anos,O Jornal, com clássica sensibilidade e poderoso ouvido para denúncias. O jornal de Uganda, chamado The Rolling Stone, que publicou uma lista de nomes da comunidade LGBT que deveriam ser mortos pelos leitores, faz rápida conexão com o Brasil contemporâneo, país que mais mata gays e travestis em todo o mundo. A montagem desta caça às bruxas é um tratado sobre tolerância, respeito e compaixão.

Dinamarca é o Hamlet antropofágico do grupo Magiluth, de Recife. Um reino que acaba de viver um golpe de estado é o cenário metáfora para a feroz crítica às elites feita pelos pernambucanos em sua festa selvagem. A onipresença de corpos masculinos remete ao comportamento de uma sociedade patriarcal em cenas simbólicas de potente discurso. O teatro documentário da Companhia de Teatro Kiwi apresenta Manual de Autodefesa Intelectual, com texto e direção de Fernando Kinas, sobre o exercício da dúvida, em sofisticado jogo de silogismos através de trinta quadros que debatem as mistificações e os obscurantismos contemporâneos.

Em Cabaret Macchina, os artistas da Casa Selvática, coletivo sediado em Curitiba e com forte ação em espaços públicos, encontram Karina Buhr para ocupar as ruas da cidade e reinventar novas possibilidades de mundo. Humor corrosivo, relações entre o clássico e o contemporâneo e o ativismo livre e vibrante desses artistas fundamentais na cena curitibana.

A Cia dos Atores, inscrita na memória do festival, da cidade e do país com trabalhos memoráveis, desde “A Bao a Qu”, passando por “A Morta”, de Oswald de Andrade – só para citar as primeiras que estiveram no Festival e marcaram gerações –, comemora 30 anos e vem a Curitiba com sua mais nova criação, Insetos, questionando o antropocentrismo, a fragilidade da vida e pensando novas possibilidades de organização do mundo, com texto de Jô Bilac e direção de Rodrigo Portella.

Em Suassuna – O auto do Reino do Sol, a Cia. Barca dos Corações Partidos adentra um entre tantos brasis profundos, numa forte aliança entre o erudito e o popular, característica que ilumina o gênio de Ariano Suassuna, com canções de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho.

Em A Visita da Velha Senhora, a atriz Denise Fraga, dirigida por Luiz Villaça,
retoma mais um clássico para pensar os jogos de poder e as relações de classe nos nossos tempos, seguindo sua trajetória de construção de uma linguagem que dialoga intensamente com o público e que cria ao longo do tempo um repertório generoso e importante para o teatro brasileiro.

CO PRODUÇÕES

O Festival de Curitiba promove três coproduções em estreia nacional em sua edição de 2018:

Denise Stoklos em Extinção é um diálogo entre a artista paranaense, criadora do Teatro Essencial, que comemora 50 anos de carreira no Festival, com o escritor austríaco Thomas Bernhard, cuja ideia literária era o aniquilamento de todas as ideias nacionais vigentes. O conceito de família, o comportamento da classe média, o império de marketing, a classe artística, o bom patrão, o bom empregado e a própria artista, seu corpo e sua memória, são alguns dos alvos desta criação que investiga o Brasil hoje, onde “a lucidez demonstra que sem extinção de tudo não se consegue nova etapa”.

A performer brasileira Eleonora Fabião cria especialmente para esta edição a performance Se o Título Fosse um Desenho, Seria um Quadrado em Rotação, série de quatro ações a serem realizadas no centro de Curitiba. Relacionando corpo, estética e política, a performer convida trabalhadores curitibanos a ativar sua proposição em uma troca entre instituições públicas que subverte hierarquias e materializa empatias.

Domínio Público é uma peça criada para refletir a onda de conservadorismo e intolerância que assolou o Brasil no ano de 2017. Criada e performada por artistas cujas obras e ações estiveram envolvidas em diferentes episódios de ataque e censura, Domínio Público é também um estudo sobre o Brasil de hoje. Os artistas – que passaram a ser conhecidos popularmente como o homem nu do MAM (Wagner Schwartz), a travesti que interpreta Jesus (Renata Carvalho), o homem nu da bolha (Maikon K) e a mãe que permitiu que sua filha tocasse o homem nu (Elizabeth Finger) – refletem sobre fake news, o papel da mídia, os robôs e as mensagens de ódio, estado e religião,
arte e sexo como uma resposta pública ao momento virulento que o Brasil enfrenta.

A Ira de Narciso é mais um exemplo da fascinante trajetória de auto ficção de Sergio Blanco, dramaturgo uruguaio que assim definiu o conjunto de sua obra até agora. Construída sobre três vetores de escrita e fala, narração, conferência e confissão, a obra avança na investigação dos temas que marcam suas peças, como mitologia, sexualidade, criminologia, desejo, redes sociais e construção de identidades. A criação brasileira reúne Celso Curi, Yara de Novaes e Gilberto Gawronski.

ESPETÁCULO CONVIDADO

A dramaturgia de Rajiv Joseph apresenta delicada alegoria sobre hierarquia e exercício de poder em Os Guardas do Taj, ecoando momento bélico nacional na relação entre dois servidores em momento de decisão reativa ao governo.

INTERLOCUÇÕES

A Mostra inclui também uma série de ações, encontros, workshops, palestras, lançamento de livros e debates críticos. Estímulo à formação do pensamento e às trocas entre artistas e entre artistas e público.

Com estes espetáculos e série de atividades, temos o prazer de afirmar mais uma vez a legitimidade da arte e da cultura como principais criadoras da identidade nacional. Que os corpos e a cidade reverberem e criem memória!

Guilherme Weber e Márcio Abreu
Curadores

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