Depoimento de quem está dentro: Maria Eduarda, estagiária do Programa Guritiba, conta como o espetáculo “Karingana ua Karingana” impactou a vida das crianças

Trabalhar com o espetáculo “Karingana ua Karingana” nas escolas de Almirante Tamandaré vem gerando experiências únicas para quem vivencia e também para quem está mediando o conteúdo. É um desafio trabalhar com arte no momento da volta às aulas, ainda mais quando a presencialidade do teatro ainda não está acontecendo.

Contudo, para a segurança de todos, os conteúdos artísticos foram gravados e eles são mediados presencialmente por mim, Maria. O retorno para a nova sociedade é um tanto estranho para professores como para alunos. Há muitos relatos de que as crianças enfrentam problemas para focar nas aulas e de que acabaram esquecendo algumas matérias já trabalhadas.

Além disso, há uma comoção e uma vontade de estar junto, uma energia que faz com que as crianças estejam focadas em suprimir a falta que a escola fez nesses quase dois anos de reclusão em nossas casas.

Apesar de não ser perfeito, de cada dia ser um dia e cada turma resultar numa experiência única, é possível perceber que temos um impacto na vida desses alunos.

Falar de racismo na escola é delicado, porém extremamente necessário. O espetáculo “Karingana ua Karingana” é para além disso e ressalta a resistência e a ancestralidade de um povo que construiu o Brasil. A identificação é potente e há também as facetas dos preconceitos e o duro relato das realidades.

Particularmente, frases como “Eu gostei muito”, “Obrigada por terem trazido isso” e também a diversão das crianças na hora da oficina de danças negras são coisas que preenchem o coração, mas o que comove são outras coisas.

Em uma das ações uma criança contou, em particular, que seu pai frequentava a umbanda, mas já não fazia mais isso. Ele me disse que havia um terreiro de umbanda e uma igreja perto da casa dele e eu respondi “Que legal!”, confirmando que era positivo que o terreiro de umbanda estava próximo dele. Entretanto, ele relatou “É, não é legal”, comentando sobre a tensão que havia naquele local, por conta do preconceito da igreja.

Outro relato, em outra escola, um menino que não se considerava negro, mas que era fruto de um relacionamento inter-racial, me disse em particular “Toda minha família é chamada de macaco, eu não, porque sou mais branquinho, é muito legal que agora todo mundo aqui vai saber que fazer isso é ruim”.

O menino do último relato não participou ativamente da atividade, ficou mais reservado e conversou comigo em particular somente. As formas de experienciar e dos alunos serem impactados pelo conteúdo é diferente. Às vezes, não é da forma que imaginamos.

A importância da mediação teatral aqui é crucial, pois é com ela que conseguimos chegar em estereótipos como “Na África as crianças passam fome”, “Na África não tem comida e água”.

Aqui cabe a função pedagógica de deixar que isso surja, porque afinal é o que eles sabem previamente, mas questionar, junto a eles, se há problema em relação a esses comentários. Fazer com eles percebam a generalização e o racismo por eles mesmos, através da reflexão.

Nesse sentido, eu, como mulher branca, também aprendo e me relaciono com tudo que vivencio no projeto com muito respeito, deixando que as crianças experienciem por elas mesmas.

Assim, é importante ressaltar que a mediação só está da forma que está pois a equipe da Fundação Cultural de Almirante Tamandaré contribui durante as ações e que, para além disso, participar das oficinas para educadores sobre relações étnico-raciais me possibilita a reflexão sobre como conduzir as ações do Guritiba.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: